20 junho 2009

Um toque de Midas para ajudar os pedintes


October 2, 2008
Originally uploaded by Jizzon

Gay Talese

Dia desses, ao passar em frente ao condomínio de Bernard L. Madoff para descontar um cheque na minha agência da Madison com a 63, fui saudado por um pedinte de meia-idade. Sentado na calçada, escorado na fachada de tijolos do banco, ele brandia uma caneca de plástico na minha direção.

Dei-lhe alguns dólares e perguntei: “Como a economia está afetando você?” “Não mudou nada”, disse ele. “Ruim como sempre”.

Entrei no banco para completar a transação e quando voltei ele havia ido embora. Mas a caminho do centro, depois da Barney's, encontrei outro pedinte, com um cartaz que dizia: “Sem-Teto. Ajude Por Favor.”

Deixei um dólar em sua caixa, mas na mesma hora pensei que poderia ser uma boa atualizar o cartaz – ele precisava de um toque de estímulo, palavra que vem dominando as manchetes. “Você
provavelmente ouviu falar sobre a crise financeira, certo?” Ele
confirmou. Era mais jovem que o outro sujeito, e parecia me dedicar toda sua atenção. “Talvez você recebesse mais atenção e as pessoas doassem mais dinheiro se você mudasse algumas palavras no seu cartaz...”

Parei de falar e vasculhei o bolso em busca de um dos pedaços de
cartolina de lavanderia nos quais faço anotações durante entrevistas.

Em um desses pedaços, escrevi: “Apoie o Plano de Estímulo do presidente Obama... Comece agora mesmo... pela base... Obrigado.”

Entreguei-lhe o cartão. Ele disse que ia passar as palavras para o cartaz e deixá-lo em exposição no dia seguinte.

Mais tarde, voltei para casa e escrevi as palavras em letras grandes no meu computador. Depois de imprimir duas dúzias de cópias, colei cada uma das páginas em pedaços separados da cartolina (35 por 20 centímetros) que vem junto com minhas camisas da lavanderia.

No dia seguinte, no domingo, e também durante o feriado de
segunda-feira, distribuí as mensagens para pessoas que vieram me
pedir dinheiro, explicando-lhes por que eu achava que a economia
seria estimulada por meus cartazes. Apontei também que os grandes banqueiros e líderes industriais que o governo estava resgatando possuíam lobistas e empresas de relações públicas para representá-los; mas pessoas em busca de esmolas pela rua precisavam realçar a premência de suas necessidades, relacionando-as às manchetes e prioridades do presidente Obama. Estímulo, estímulo!!

Anotei os nomes e telefones de vários dos meus clientes nas ruas.
Todos disseram que iam usar os cartazes que eu fiz. Na segunda à
noite, telefonei para alguns deles para perguntar se a mensagem tinha surtido algum efeito.

A maioria disse que era muito cedo para dizer. Mas todos estavam
esperançosos. Kimmy Roberts, que havia passado a segunda-feira na Quinta Avenida, próximo à 58, disse que era “uma abordagem eficaz”.

Outro, chamado Byron Breeze, que ficou na Madison com a 60 em sua cadeira de rodas, com o cartaz no colo, disse que vários pedestres leram o aviso e pararam para discutir o assunto com ele. E, mais importante, acrescentou: “Acho que ontem consegui uns 10 ou 20 dólares a mais que antes. Talvez o cartaz já esteja funcionando”.

Gay Talese, autor de livros de não-ficção e de um vasto número de artigos para revistas, foi repórter do The New York Times de 1956 a 1965.

Fausto Machado Tiemann – Tradução e Revisão de Texto – fmtiemann@gmail.com
(Texto original em inglês publicado no blog City Room, do New York Times -- http://cityroom.blogs.nytimes.com/2009/02/17/when-panhandlers-need-a-wordsmiths-touch/)