20 junho 2009

De Tenório a Clodovil


Congresso Nacional
Originally uploaded by Marcelo @morim

Observações idôneas de um colecionador de deputados

O primeiro parlamento a gente nunca esquece. Eu, pelo menos, nunca esqueci. Por sorte ou azar, foi o Congresso Nacional - que, para ser franco, me pareceu então uma verdadeira esculhambação.

Na época, eu era estudante de jornalismo e a 1ª Secretaria da Câmara dos Deputados promovia um programa voltado para mostrar a universitários de todo o país como funciona o parlamento.

Funcionava mal, diga-se de passagem. Era um Congresso de brincadeirinha, em pleno regime militar, início dos anos 70. Com as exceções que caracterizam as regras, tratava-se de um Poder Legislativo que não legislava, não fiscalizava e que mais contribuía, na verdade, para fantasiar de democracia uma ditadura de cara feia e sombria.

A primeira imagem que tive da atividade parlamentar brasileira foi desalentadora. Tenho até hoje na memória: no plenário do Senado, pouco mais de vinte senadores, uns lendo jornais, outros batendo papo e pelo menos dois cochilando sem maiores preocupações, enquanto o veterano senador Nélson Carneiro se esgoelava na tribuna, num inflamado discurso em defesa do divórcio. Parecia que somente nós, estudantes nas galerias, prestávamos atenção ao palavreado do velho parlamentar.

E a sorte dele é que naquele tempo ainda não existia celular.

Fiquei tão impressionado com aquilo que, a partir dali, passei a me interessar pelo funcionamento dos parlamentos de um modo geral. Será que era assim em todo o mundo? Depois, trabalhando com jornalismo político por muitos anos, tive oportunidade de confirmar muitas das minhas primeiras impressões,rever outras e, principalmente, constatar que sempre é melhor ter um parlamento, por pior que seja, do que não ter nenhum.

Depois de muito tempo afastado do tema, volto a abordá-lo por um motivo inusitado. Há alguns meses, fui apresentado por amigos, num restaurante, a um curioso personagem: o pensador mundano franco-libanês Albernaz Abud, que, entre outras revelações surpreendentes, nos contou que colecionava deputados. Todos na mesa ficamos intrigados. Como se coleciona deputados?

Não apenas deputados, alguns senadores também e até candidatos mais peculiares que não lograram se eleger – disse Albernaz, explicando que sempre fora fascinado por parlamentares e iniciara sua coleção com a deputada italiana Cicciolina, famosa atriz pornô cujo desempenho nas telas, aliás, sempre o agradara. Ele disse que logo percebeu as imensas potencialidades que a política brasileira descortinava para o enriquecimento da sua coleção. A tal ponto que, há duas eleições consecutivas, ele vem acompanhar as campanhas no Brasil - a última das quais aqui na Bahia, não se sabe por que cargas d’água.

Como observador especializado, Albernaz Abud levou para sua coleção dois candidatos baianos. O primeiro foi o pitoresco Bira do Jegue, que se candidata em toda eleição e nunca se elege, nem ele nem o jegue. Lembrou-lhe um candidato de sua terra, o Mohamed do Camelo Manco, que chegou a exercer dois mandatos como vereador em Beirute. O outro candidato ele chama de Carneiro e é definido no seu catálogo de colecionador como um “surfista de liminares, político que construiu sua carreira despachando mandados de segurança a torto e a direito e terminou se tornando um dos mais atrapalhados alcaides da história do seu triste burgo, capaz de comprar trens maiores do que os túneis por onde deveriam passar”.

Cada vez mais fascinados por aquela excêntrica figura, nem mais nos surpreendemos quando o libanês radicado na França puxou da algibeira um caderno de anotações, em árabe, onde constavam alguns verbetes de parlamentares brasileiros de sua coleção.

Ele queria conferir se as informações estavam corretas. E leu o que se segue:

Tenório Cavalcante – Conhecido como “o homem da capa preta”. Polêmico político da região de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, uma das áreas mais violentas do Brasil. Sua marca registrada era a Metralhadora Lurdinha, que ele carregava no ombro escondida sob sua indefe ctível capa preta e ia com ela a todas as sessões da Câmara, sendo mais assídua do que a maioria dos deputados. Tenório tinha um grupo armado de mais de 40 capangas.

Arnon de Melo – Senador alagoano conhecido por sua péssima pontaria. Ia armado para o plenário do Senado e, certo dia, deu três tiros a queima roupa no seu conterrâneo e adversário político Góes Monteiro. Errou os três, mas acertou e matou o senador acreano José Khairallah, que não tinha nada a ver com o peixe. Arnon nunca foi condenado e continuou senador.

Dizem no Brasil que o seu maior crime, contudo, foi ajudar a botar no mundo o filho Fernando Collor, ex-presidente brasileiro de triste memória, hoje também senador.

João Alves - Anão do orçamento, espécie endêmica do parlamento brasileiro, infelizmente não ameaçada de extinção. Membro da quadrilha de parlamentares que se dedicava a embolsar recursos do orçamento da União, renunciou para não ter seu mandato cassado. Numa inesquecível entrevista coletiva, ele explicou aos brasileiros que era um homem de muita sorte, tinha ganhado 221 vezes na loteria e por isso ficara rico.

Mário Juruna – Cacique Xavante que foi o primeiro – e até agora único – representante indígena no parlamento brasileiro.Recusou-se a usar terno e gravata, como exige o protocolo da Câmara, e quase perdeu o mandato por dizer que “todo ministro é ladrão”. Teve sua imagem desmoralizada quando confessou ter recebido dinheiro para votar em Paulo Maluf no colégio eleitoral, em 1984. Pressionado por seus colegas de partido, acabou devolvendo o dinheiro e votando em Tancredo Neves. Sua arma no mundo dos brancos foi o gravador. “Eu comprei gravador porque branco faz muita promessa, depois esquece tudo”, costumava explicar o deputado.

Ângela Guadagnim- Gordinha apetitosa (nota do editor: para o paladar muçulmano de Albernaz, é claro), que se notabilizou pelos seus excelentes dotes de dançarina, sempre exibidos para comemorar a absolvição de correligionários políticos acusados de picaretagem. Sua principal performance ficou conhecida como dança da pizza. Deve ser o que na política libanesa é conhecido como dança do kibe.

Paulo Maluf– Responde a processos de corrupção diversos desde a mais tenra idade. Jáusou verbas públicas para presentear jogadores de futebol com fuscas e conseguiu a proeza, como prefeito de São Paulo, de construir um túnel cujo quilômetro linear saiu mais caro do que o do Eurotúnel, que passa embaixo do Canal da Mancha. Contra todas as evidências, nunca admitiu seu excessivo apreço pelo dinheiro público.

Clodovil Hernandez – Jóia da coleção. Espécie de Cicciolino do parlamento brasileiro. Figura exótica, costureiro de profissão, representa não se sabe exatamente o que. Destaque absoluto no Congresso no que concerne a alegorias e adereços, tem uma certa birra com o gênero feminino.

Chamou uma colega deputada de feia, embora ele mesmo, na opinião de alguns amigos de Beirute que viram suas fotos, ande parecendo mais uma odalisca decadente e caquética.

Assim falou Albernaz Abud. E nada mais disse, nem lhe foi perguntado.

-- Renato Pinheiro